• Eu e o frio alsaciano

    O inverno chegou. Lembro bem do choque do primeiro inverno quando cheguei aqui: ao olhar pela janela o grande termômetro que ficava em frente da nossa casa, pensei que estivesse quebrado. Não estava. Lá fora estava realmente fazendo 15° negativos! Para uma carioca como eu que considera(va) 20° frio, quase deu em divórcio. 

    Esse dia ficou na minha memória. Estávamos recém instalados na região, ainda meio perdidos com a tranquilidade do lugar depois de dois anos envolvidos na frenesia asiática, quando descobri in loco esse dado surpreendente: a Alsácia é uma das regiões mais frias da França. Já era tarde demais para voltar atrás.

    Ao confirmar que não, o termômetro não estava quebrado, levantei-me bruscamente e, num tom autoritário, disse a meu marido: "Não vou ficar aqui!". Claro que fiquei. Lá se foram oito anos.

    O grande segredo nessas circunstâncias é saber domar o frio. Ou melhor, domar nossas apreensões relativas ao frio, instauradas por uma forma de cegueira cultural. É muito mais difícil do que se imagina liberar-se das amarras construídas por nosso sistema de valores. O fato é que nasci e passei mais da metade da minha vida no Rio de Janeiro, onde o sol e o calor são onipresentes. A praia e o que gira em torno dela são referências constantes na moda carioca, no vocabulário, no nosso jeito de ser e ver o mundo. No Rio, vamos ao supermercado de havaianas, vamos ao restaurante de kanga, lemos o jornal na praia e é ali, também, que marcamos encontro com amigos e decidimos o que vamos fazer no sábado à noite. Pelo menos a minha vida era assim.

    Nesse primeiro contato com 15° negativos, vesti-me como se estivesse indo para a lua. Coloquei um antigo casaco de esqui, daqueles bem grossos (eles estão cada vez mais finos e coloridos), um gorro, luvas, botas e fui comprar pão andando em câmara lenta, como se não houvesse gravidade. Apesar de estar agindo como um astronauta, o alienígena ali era eu. As pessos estavam vestidas normalmente, andavam normalmente e me olhavam quase normalmente: eu podia ver em seu olhar um não sei o que interrogativo.

    Quebrar nossa visão de mundo e reconstruir o puzzle com novas peças, essa é a chave para se ser feliz, aqui e agora, onde quer que se esteja. Atualmente moro na cidade da França que fica mais distante do mar. Nenhuma outra fica, em quilômetros, mais longe da costa pelo sul, pelo norte, pelo oeste e, obviamente, pelo leste (em linha reta indo para o leste, o litoral mais próximo fica na Mongólia). Além de ser uma das mais frias. Meu marido escolheu muito bem minha prova de amor.Eu e o frio alsaciano

    As temperaturas na Alsácia podem ultrapassar facilmente os 20° negativos. Mas hoje o inverno já não me assusta como antes. Integrei o frio no meu modo de vida e não fico mais contando os dias para a primavera chegar, embora, não vou negar, fico mais leve e feliz quando seus primeiros sinais se manifestam. Saio menos do que nas outras estaçãos, mas vou caminhar mesmo com temperaturas negativas. Aprecio a beleza melancólica das paisagens outonais e invernais. Curto programas caseiros, como tomar chocolate quente com meu filho depois da escola, assisto em casa, embaixo das cobertas, aos filmes que perdi no cinema no decorrer do ano, leio mais, aprendi a dirigir na neve e a me vestir adequadamente, sem exageros. Sentiria falta da ausência de estações bem marcadas, dessa montanha russa de emoções provocadas pelas diferenciações impostas pela natureza. E principalmente, parei de comparar e buscar aqui o que tinha alhures. 

    Quando os dias curtos e cinzentos me infligem abruptamente a saudade dos meus, fecho as cortinas, coloco uma música e me subtraio do mundo.

     

     


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